TRANSPLANTE DE CABEÇA: UMA REFLEXÃO PASTORAL

image-06-largeNa última semana fui alertado sobre uma matéria do programa “Domingo Espetacular”, da Rede Record de televisão, acerca de Sergio Canavero, um neurologista italiano que pretende realizar o primeiro transplante de cabeça em seres humanos até 2017. O já polêmico procedimento teria como objetivo ajudar pacientes com graves problemas motores, mas que possuam uma cabeça sadia, ao exemplo do famoso físico teórico Stephen Hawking.

O que parece ficção científica ao estilo Frankenstein é um sério projeto que já possui um voluntário russo chamado Valery Spiridonov (que sofre de amiotrofia espinhal do tipo Werdnig-Hoffman), a busca por uma junta de 150 médicos e enfermeiros que participarão do transplante e a promessa de uma nova técnica (a partir do uso do polietileno glicol, que teria a capacidade de fundir as duas extremidades da medula espinhal) que possibilitará sucesso em um procedimento que já falhou no passado em cães e macacos.

As informações preliminares apontam que o corpo viria de um doador que teve morte cerebral, mas tem todos os outros órgãos em bom funcionamento. Resfriando-se, tanto o corpo do doador quanto a cabeça do voluntário, as células não morreriam. Pescoço, veias, nervos seriam unidos. Em coma, o paciente teria suas conexões nervosas estimuladas por correntes. Ao que parece, a cirurgia deve durar 36 horas e custar por volta de 35 milhões de reais. Mas, qual a relação desta matéria com a vida do cristão? Bem, é o que pretendo refletir nesta pastoral.

transplante-cabeca-1Há sérias questões envolvidas entorno de um transplante de cabeça. Há questões médicas: a cabeça rejeitará o novo corpo? Apesar de todos os avanços da medicina moderna, grande parte dos médicos especialistas em transplantes não acredita no sucesso do “Dr. Frankenstein”, como tem sido chamado. Há questões éticas: seria ético alguém viver no corpo de outro? Há questões psicológicas: quem é o indivíduo transplantado? O CPF será da pessoa doadora da cabeça ou Ada pessoa doadora do corpo? E as possíveis crises de identidade? Há muitas questões que não cabem nesse breve texto. Entretanto, o cristão também pode levantar as questões religiosas. Em caso de sucesso, o que particu-larmente não acredito como poderiam ser respondidas as seguintes perguntas:

(1) Essencialmente, o homem é formado por uma parte material e outra imaterial. Corpo e alma formam a unidade psicossomática do ser humano. Nesse caso seriam duas almas em dois corpos juntos? Duas almas se tornariam uma só? Ou seria uma prova que não há alma?

(2) A vida é um dom de Deus, é sua criação. Ele é o Autor da vida. Assim, a cabeça de um ser humano no corpo de outro seria uma nova vida? Ou seriam as mesmas duas vidas em um novo corpo vivo? Ou seria apenas uma vida, ainda que se não saiba quem, de fato, está vivo?

(3) Jesus morreu pelos pecados do homem. Tanto a salvação como a confissão dos peca-dos são particulares, dizem respeito à responsabilidade de cada indivíduo por si. A salvação alcança o homem inteiramente. Logo, por exemplo, se o doador do corpo não for um cristão redimido e o voluntário da cabeça o é, como ficará a nova disposição, isto é, qual corpo será glorificado no fim dois tempos? O da cabeça ou o transplantado? Em caso de morte/ressurreição a alma voltará para qual “pessoa”: o da cabeça, do corpo ou do transplantado?

Enfim, as questões religiosas, psicológicas, éticas e médicas levantadas me levam a desa-creditar no sucesso deste transplante. Não podemos ser insensíveis com as pessoas que passam por sérias doenças musculares degenerativas ou câncer, mas este procedimento é muito mais complexo do que está sendo anunciado na mídia.

Rev. Ângelo Vieira da Silva

2 comentários

  1. E porque o espírito tem que habitar exatamente todo o corpo? Porque não podemos pensar que o espírito se concentra no cérebro onde está todo o raciocínio, ética, sentimentos? Porque não estar errado com conceitos antigos? Sou cristão, e fico com a esperança de um dia o transplante funcionar e com isso causar um confronto com a cultura inocente da igreja, podendo amadurecer melhor a Fé Cristã. Existem muitos conceitos errados que devem sofrer um amadurecimento, principalmente para acabar com a guerra bíblia e ciência e de uma vez por todas as pessoas entenderem que ciência e bíblia andam juntas como engrenagens bem projetadas. Acredito que o sucesso de algo tão complexo poderia ajudar aos cristãos a terem uma Fé mais inteligente.

    • Olá Rafael. Agradecemos pelo comentário.
      De fato, suas perguntas iniciais “E porque o espírito tem que habitar exatamente todo o corpo? Porque não podemos pensar que o espírito se concentra no cérebro onde está todo o raciocínio, ética, sentimentos?” já demonstram a complexidade do assunto. Não seria prudente em uma breve pastoral querer resolver um problema de séculos na teologia. Esse não é um tratado teológico. Procurei me afastar do que é certo ou errado, me reservando apenas a reflexões introdutórias. Como você,
      creio na necessidade de amadurecimento da fé cristã. Espero por isso. Afinal, crer é também pensar.

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